Está uma passagem do SO-50 a começar. Dez, quinze minutos de satélite acima do horizonte, o tempo todo que temos. Ligo o rádio, afino o Doppler, e o que me chega ao altifalante não é uma conversa: é uma enxurrada de indicativos, uns por cima dos outros, a ocupar o único canal que existe. Passam os minutos. Não há um único QSO completo. A passagem acaba, e eu fico com a mesma pergunta de sempre: valeu a pena?

Escrevo isto com indignação e, confesso, com algum desalento. Os satélites FM são provavelmente a melhor porta de entrada para o radioamadorismo espacial. Estamos a desperdiçá-la.

Certificado do Sputnik Award, de outubro de 2007, por contactar a estação especial GB50SO através do SO-50

Sputnik Award, 2007: contactos com a estação especial GB50SO via SO-50.

Um canal, um QSO de cada vez

O princípio é tão simples que me custa estar lembrá-lo: um satélite FM é um repetidor com um único canal. Só uma estação pode ser ouvida de cada vez. Duas estações a transmitir ao mesmo tempo não se somam: anulam-se. Quem chama por cima de um QSO em curso não aumenta as suas hipóteses de contacto. Estraga o contacto de quem estava a comunicar e, no caminho, o seu próprio.

Respeitar um QSO em curso não é cortesia opcional. É a condição para o sistema funcionar. E no entanto, basta uma estação soltar o PTT para surgirem logo três ou quatro a chamar, sem esperar sequer que a conversa termine.

Quem és tu e com quem falas?

Outro clássico. Uma estação chama CQ e dá o seu indicativo. Responde-lhe outra, apenas com o seu próprio indicativo. E eu pergunto-me, como todos os outros que estão à escuta:

  • está a responder à estação que fez CQ?
  • está a dizer que consegue chegar ao satélite?
  • está a chamar alguém em particular?
  • está também a fazer CQ?

Ninguém sabe. E a convenção existe precisamente para evitar isto: quem responde a uma estação diz “AAAAAA de BBBBBB grid” (o indicativo de quem chama, depois o seu, finalizando com o grid locator) e aguarda a resposta. Três palavras, dois segundos de tempo de antena, e todos os que ouvem percebem quem está a falar com quem. Sem isso, o que sai é ruído com indicativos.

E logo a seguir, como se tivessem ensaiado, entram cinco estações a interromper aquilo que podia ter sido um QSO.

Quatro carateres bastam

Uma coisa que me irrita de forma muito concreta: as estações europeias a passarem o locator com seis posições. Para o diploma VUCC só contam as quatro primeiras posições do grid locator. Então para que dizer as seis? Cada letra a mais é tempo de satélite a menos. Num canal partilhado por dezenas de estações, e com pouco mais de dez minutos de passagem, cada segundo vale ouro. No meu caso, “IN51” chega. O resto é vaidade, ou hábito, e em qualquer dos casos custa ao grupo. E eu já pequei, por isso sei do que falo.

Quem emite e não ouve

Há ainda um problema, e talvez seja o pior: as estações que emitem mas não ouvem em condições. Estão a chegar ao satélite com sinal forte, mas não ouvem o downlink, ou não ouvem bem, e por isso não sabem que o canal está ocupado. Resultado: transmitem em cima de toda a gente, sem perceberem, e provocam um autêntico blackout para quem estava a tentar usar o satélite.

Ouvir antes de emitir não é um pormenor técnico: é a base de qualquer operação em rádio. Quem não consegue ouvir o satélite não devia estar a transmitir para ele. Se não ouves, não emitas.

Como se faz bem

O que mais me custa é saber que isto não é uma fatalidade. Tenho visto alguns vídeos no Youtube de operadores de outras latitudes, e a experiência é completamente diferente. Esperam pela sua vez. Escutam. Quem chama diz o indicativo uma ou duas vezes e fica calado. Quem responde usa o formato certo. A troca é curta, o QSO fecha-se, e o próximo entra. Numa passagem de dez a quinze minutos, fazem-se muitos contactos bem feitos, e todos saem satisfeitos, incluindo os que ficaram à espera da sua vez.

Cartão QSL de VA3NNA, do Canadá, com um astronauta a segurar uma antena Yagi e um rádio portátil

Um cartão QSL de VA3NNA (Canadá). Rádio portátil e uma Yagi chegam para fazer satélite.

É disciplina, e não custa nada. É a mesma que tornou possível, desde o início, partilhar um recurso tão escasso como um satélite com dezenas de estações ao mesmo tempo.

O mínimo que gostaria que acontecesse

Resumo, em seis pontos, o que deveria ser a prática comum:

  1. Escuta primeiro. Se há um QSO em curso, espera que acabe.
  2. Chama pouco. Uma chamada, o indicativo, e silêncio.
  3. Responde no formato certo: “AAAAAA de BBBBBB, grid”, e aguarda.
  4. Troca só o essencial: indicativo e locator de quatro carateres.
  5. Se não ouves o satélite, não emitas. Resolve primeiro o Doppler, a antena, a frequência de receção.
  6. Fecha o QSO e liberta o canal. Há mais gente à espera.

Não é pedir muito. É o que separa uma passagem aproveitada de vários minutos perdidos. E se cada um de nós fizer a sua parte, os satélites FM voltam a ser aquilo que sempre prometeram ser: um sítio onde é possível fazer rádio.

Certificado DX Century Club (DXCC) via satélite, n.º 489, de 17 de novembro de 2023

DXCC via satélite, certificado n.º 489.

Ah! Já agora, o satélite não é só teu. Deixa espaço para outros chamarem também!