Cheguei ao radioamadorismo porque me apaixona o fenómeno da propagação das ondas de rádio. A comunicação, mas também o ruído branco, o atmosférico. Ainda que apenas só haja ruído, a rádio preenche-me. Nada disto se compra e nada disto se mede. E, no entanto, aqui estou, a olhar para uma lista de entidades como quem olha para um pesado fardo.
Este texto é um acerto de contas comigo, e uma pergunta a quem me lê: quando é que um hobby feito de liberdade e prazer se transforma numa prisão?
A lista que nunca acaba
O DXCC é uma invenção genial: divide o planeta em entidades, com base numa lista de critérios, e confere ao hobby a aura de um jogo de colecionador. Cem entidades para obter o primeiro diploma, depois a Honor Roll e a Top Honor Roll. Depois cada banda e cada modo, e cada categoria separada. Nasceu o DXCC Challenge. Há sempre mais uma linha para preencher, e é essa a armadilha: uma lista que nunca acaba nunca nos deixa chegar ao destino.

Uma entidade rara, tornada cartão.
Erich Fromm escreveu um livro inteiro sobre isto, Ter ou Ser?. Na modalidade do “ter”, o que somos confunde-se com o que acumulamos. Deixo de ser alguém que gosta de rádio e passo a ser alguém que tem n entidades. O problema é que o que se tem pode sempre ser comparado com o que o outro tem, e aí já não há descanso.
Os estoicos chamavam a isto desejar sem medida. Séneca resumiu-o numa frase que diz, mais ou menos, que não é pobre quem tem pouco, mas quem deseja mais. Schopenhauer foi mais sombrio: a vida oscila entre a dor de querer e o tédio de ter conseguido. Quem já fez uma entidade nova conhece a segunda metade. A alegria dura minutos. Depois o novo país passa a ser “mais um” e o olhar vai logo para o próximo que falta.
O outro como espelho
René Girard defendia que os nossos desejos raramente são nossos: desejamos o que vemos o outro desejar. O rádio é uma máquina perfeita para isso. Há quadros de honra, rankings, listas dos “mais procurados”, estações que aparecem sempre no topo. Basta uma ida ao ranking para uma pessoa que estava contente passar a sentir que está atrasada. Passar a sentir-se frustrada.
Rousseau distinguia o amor-próprio saudável (amour de soi), que é querer estar bem, do amor-próprio comparativo (amour-propre), que é querer estar acima. O primeiro cabe na vida de qualquer pessoa. O segundo nunca fica satisfeito, porque há sempre alguém com mais.
Byung-Chul Han acrescenta: no mundo do desempenho já ninguém nos obriga a nada. Somos nós a explorar-nos, a exigir mais de nós mesmos, a chamar “motivação” ao que é cansaço. Ninguém me manda ligar o rádio às três da manhã. Sou eu que voluntariamente o faço.
Quando a medida passa a ser o objetivo
Há uma lei que costuma chamar-se a lei de Goodhart: quando uma medida passa a ser o objetivo, deixa de ser uma boa medida. O DXCC foi criado para medir o nosso desempenho, para nos manter motivados e entretidos. Quando passa a ser a coisa em si, o que fica é o número.
E é aqui que tudo se estraga. Todos sabemos que há batota. Estações pirata que usam indicativos que não são seus. Operações cujos relatos levantam dúvidas à comunidade. Contactos que nunca aconteceram, registos inflacionados em concursos, desclassificações. Pessoas que fazem contactos por outros (e como é fácil agora no digital isso acontecer). Não é teoria nem rumor: acontece, e acontece num hobby que, no fundo, vive de uma confiança quase absurda. Ninguém nos fiscaliza. A palavra do operador é o árbitro, desde que encontre correspondência no log do DX.
Penso muitas vezes no que leva alguém a fazer isto. Não é o contacto, porque o contacto falso não existe. Não é a entidade, porque uma entidade que não se trabalhou não vale nada para quem sabe a verdade. Só sobra o estatuto: aparecer na lista, ser visto, ser melhor do que o outro. Ou seja, a sede de protagonismo, que é humana e universal, e que os programas de rádio competitivos deixam crescer sem freio. Não sou contra esses programas, que fique claro. Sou contra a obsessão por eles, e os métodos que alguns usam para se sentirem alguém.
O mais triste é o custo para os outros. Cada batota põe em causa quem fez o mesmo com honestidade. Cada ânsia desmedida de contactar uma entidade rara acaba por criar um clima hostil, propício ao aparecimento de DQRM, de polícias e de invejosos. A competição, levada ao extremo, devora aquilo de que se alimenta.
A pergunta que me faço a mim
Aqui deixo de falar do mundo e passo a falar de mim. Porque é que continuo obcecado em fazer novos países, mais por satélite, uma vez que apenas me faltam 5 entidades para o Mixed Top Honor Roll?
Tento ser honesto e deixo as hipóteses em cima da mesa:

Em VHF, à espera da próxima passagem.
- Superação pessoal. Parte de mim diz que sim. Fazer novas entidades, as mais raras, é difícil: acompanhar as notícias, estar no rádio no dia e hora certos, não perder pitada do que se passa.
- O ranking. Também tenho de admitir que olho para ele. E que, quando olho, quase nunca me sinto melhor. Quero mais.
- O desafio de “não parar”. Se eu deixasse de subir no ranking, o que seria de mim? O número tornou-se parte da minha identidade, e parar parece um pequeno luto.
- Uma recompensa que não se sabe quando vem. Uma passagem de satélite em que ninguém está no ar, uma DXpedition que desaparece da banda, uma entidade que só aparece de longe a longe: é o mecanismo da máquina de jogo. A imprevisibilidade prende mais do que a certeza.
E há uma coisa que me incomoda mais do que todas: quando finalmente faço um país novo, o que sinto não é bem alegria. É alívio. A tensão acaba e fico vazio durante uns minutos, até aparecer mais uma oportunidade de aumentar a lista outra vez. Alívio e prazer não são a mesma coisa.
Suspeito, portanto, que em parte sou refém. Que há ansiedade e frustração que eu próprio fabriquei, e que as pago em noites mal dormidas e em ansiedade que me faz mal. Se isto é assim, o problema não é o DXCC. É a relação que eu tenho com ele.
Mudar de relação sem largar a lista
Não quero deixar de aumentar o meu pecúlio. Gosto do desafio e acho que é possível mantê-lo. O que quero é mudar a forma como o faço. Algumas ideias que vou pôr à prova, e que partilho para me comprometer:
- Objetivos de processo, não de resultado. Em vez de “fazer três países novos este trimestre”, algo como “trabalhar vinte passagens com satélites que ainda não conheço bem”. O resultado deixa de decidir se o meu mês foi bom.
- Olhar para o ranking quase nunca. Uma vez por trimestre, e de propósito. Tirá-lo do ecrã onde o vejo todos os dias.
- Dias sem log. Ligar o rádio só para ouvir, conversar, ouvir uma estação de que nunca tinha ouvido falar. Falar para uma expedição no Ártico, ou um solitário na Antártida. O que me trouxe ao rádio foi isto.
- Distinguir o que depende de mim do que não depende. Eu controlo a antena, a preparação, a paciência. Não controlo se há alguém no ar, nem a propagação, nem a vida de quem opera a entidade rara. Os estoicos chamavam a isto dicotomia do controlo e tinham razão: a frustração vive quase toda do lado do que não controlo.
- Pôr o outro no centro. Ajudar alguém a fazer o primeiro contacto por satélite, ou o primeiro DX em HF, vale mais do que mais uma entidade. A competição é um jogo de soma zero (o que um ganha, o outro perde); a ajuda não é, e dá muito mais satisfação e prazer.
- Registar o que aprendi, e não só o que ganhei. Um diário de bordo (este site também serve para isso) com a antena que melhorei, a passagem que me surpreendeu, o operador simpático.
- Decidir o que é “suficiente”. Epicuro separava os desejos naturais e necessários dos vãos e sem fim. Não quero fixar um número, quero fixar uma regra: continuar a tentar, mas sem que o resultado decida como acabo o dia.
Liberdade outra vez

Base antártica de Novolazarevskaya.
Não creio que a solução seja renunciar. O DXCC é uma bússola bonita: aponta-nos para locis no mundo onde nunca iríamos. O problema nasce quando passa de bússola a obsessão.
Se há uma pergunta que devo fazer a mim próprio antes de ligar o rádio, é esta: se ninguém visse o resultado, ainda assim teria vontade de estar aqui? Se a resposta for sim, está tudo bem. Se for não, a razão pela qual ligo o rádio todos os dias já não é válida.
Vou tentar. Digo-vos como corre.
73 e bons QSOs, CT1ETE